Todo ano, durante essa época, uma velha e conhecida agitação me invade: o efeito verão. Que, ao contrário do que o nome possa sugerir, nada tem a ver com praia ou dias ensolarados, apesar de serem esses fatores os responsáveis por trazerem à tona esses sentimentos.
O efeito verão nada mais é do que meu corpo me avisando, de uma forma insistente e por vezes irritante, que chegou a hora de revisar os meus planos. Não acho que isso seja novidade pra ninguém, muita gente deve passar por isso, mas é uma sensação tão forte que acho que se não escrever sobre ela, a danada fica sentida e, das duas uma: ou me arrasa de ansiedade ou vai embora com lágrimas nos olhos.
O que tem me chamado atenção dessa vez é a inconstância com que esse sentimento tem me arrebatado ultimamente. Ele normalmente vem como um velho conhecido e meu corpo já sabe muito bem o que fazer com ele. Bom... não dessa vez.
Eu normalmente reajo com todo o planejamento, fantasioso ou não, dos próximos 5, 10 anos... não dessa vez.
Normalmente não deixo a incerteza gigantesca do futuro desconhecido chegar muito perto de mim... não dessa vez.
Mas, como diz um amigo meu, o corpo não sabe. Recebe toda essa agitação como se tivesse todo um quarto de hóspedes preparado pra ela mas, não tem. Não tem lugar, não tem cano pra dar vazão.
Numa fase bem estranha da minha vida, resta apenas continuar procurando o cômodo para hospedar o incômodo. Porque depois que tudo se acertar, sei que vou sentir falta desse, tantas vezes agradável mas hoje inconveniente, cheiro de verão.
sábado, 6 de novembro de 2010
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Entre aspas
"Ao sair do cinema, lembrei da descrição que o jornalista Ruy Castro fez certa vez de uma socialite que, depois de ter agitado todas, se casou e teve três filhos: 'Se ela se distraísse, acabaria sendo feliz pra sempre'.
Tem muita gente que se distrai e é feliz para sempre, sem conhecer as delícias de ser feliz por uns meses, depois infeliz por uns dias, felicíssima por uns instantes, em outros instantes achar que ficou maluca, então ser feliz de novo em fevereiro e março, e em abril questionar tudo o que fez, aí em agosto ser feliz porque uma ousadia deu certo, e assim sentir-se realmente viva porque cada dia passa a ser um único dia, e não mais um dia. (...)
Felicidade pode ser qualquer coisa, menos acomodação. Acomodar-se é fazer uma viagem no piloto automático. Muito seguro, mas que tédio. É preciso um pouco de turbulência para a gente acordar e sentir alguma coisa, mesmo que seja medo."
Tem muita gente que se distrai e é feliz para sempre, sem conhecer as delícias de ser feliz por uns meses, depois infeliz por uns dias, felicíssima por uns instantes, em outros instantes achar que ficou maluca, então ser feliz de novo em fevereiro e março, e em abril questionar tudo o que fez, aí em agosto ser feliz porque uma ousadia deu certo, e assim sentir-se realmente viva porque cada dia passa a ser um único dia, e não mais um dia. (...)
Felicidade pode ser qualquer coisa, menos acomodação. Acomodar-se é fazer uma viagem no piloto automático. Muito seguro, mas que tédio. É preciso um pouco de turbulência para a gente acordar e sentir alguma coisa, mesmo que seja medo."
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Aos desconhecidos: os nomes
O que quer que deixe o seu corpo entre sons e movimentos. Feições que lhe passam pelo rosto, mesmo que durante frações de segundos. Um tom de voz que se pronuncia maior que as próprias palavras. O ritmo de todas as suas ondas.
Uma constante entre diversas ações. O inesperado diante do familiar. Emoções que te arrastam aos lugares mais improváveis. Descobertas silenciosas que ocorrem entre outros silêncios. Entre os silêncios dos outros.
Seus sons favoritos. Os cheiros inesquecíveis. As cores das diversas saudades. Os ecos das lembranças cheirosas, daquelas caixas destampadas por acidente. As fotos dos momentos que ficaram. As fantasias psicodélicas de tudo que se espera.
"Uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."
Deixemos os nomes para os outros, para os desconhecidos. Entre nós, fiquemos com o inominável, com a carinhosa fluidez, com a confortadora falta de nomes.
Uma constante entre diversas ações. O inesperado diante do familiar. Emoções que te arrastam aos lugares mais improváveis. Descobertas silenciosas que ocorrem entre outros silêncios. Entre os silêncios dos outros.
Seus sons favoritos. Os cheiros inesquecíveis. As cores das diversas saudades. Os ecos das lembranças cheirosas, daquelas caixas destampadas por acidente. As fotos dos momentos que ficaram. As fantasias psicodélicas de tudo que se espera.
"Uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."
Deixemos os nomes para os outros, para os desconhecidos. Entre nós, fiquemos com o inominável, com a carinhosa fluidez, com a confortadora falta de nomes.
domingo, 2 de agosto de 2009
"Marqueee o tempooooo"
Por hora, não me interessa se nossas datas festivas são apenas desculpas de uma sociedade consumista. Não me importa também que a quem se dirige essa mensagem nunca tenha lido meu blog. Pois não me faltam motivos para dedicar um andar dessa torre a pessoa que tantos desses tijolos fabricou.
Filho de peixe nem sempre peixinho é, mas em mim, se acham grudadas as barbatanas e muitas de suas escamas. E que escamas esquisitas muitas vezes eu acho por aqui.
Como a maioria dos pais da época, ele usava bigode. Mas foi um dos poucos que, quando a moda (!) passou, esperou pacientemente até que eu tivesse idade suficiente para entender que meu pai não era um bigode, e sim a pessoa por trás dele, para modernizar o visual.
Foi graças a ele que, aos treze anos, eu me tornei a única menina da turma a cantar de cor todos os maiores sucessos do Fagner. Hoje, ainda me sobrou toda "Borbulhas de amor" e os melhores trechos de "Espumas ao vento", além do sotaque, é claro.
Não entendo porque até hoje ele se assusta quando começo a cantar as vinhetas da narração dos jogos de futebol pelo José Carlos Araújo, Gerson canhotinha de ouro e cia, já que foram ele e aquelas voltas de viagem num domingo à tarde que me fizeram, involutariamente, gravar essas músicas.
Minha paixão pelo cinema vem da mania dele de assistir QUALQUER filme. Mesmo aquele, japonês, da década de 80, que ele já pegou pela metade! Ele precisa assistir até o final, para muitas vezes concluir que o filme é uma droga. E toda vez que ensaio me irritar com essa mania, lembro que ele é o único que atura meus filmes, que para os outros, são igualmente chatos.
Foi dele que herdei as contas, o raciocínio lógico, e daqui a seis meses, me tornarei a engenheira que acredito que ele gostaria de ter sido.
Muitos dos meus tijolos não foram feitos por ele. Mas não consigo reconhecer um andar sequer sem um pedaço do seu bigode, do seu Fagner e do seu amor.
Feliz dia! Dos pais, e todos os demais.
Filho de peixe nem sempre peixinho é, mas em mim, se acham grudadas as barbatanas e muitas de suas escamas. E que escamas esquisitas muitas vezes eu acho por aqui.
Como a maioria dos pais da época, ele usava bigode. Mas foi um dos poucos que, quando a moda (!) passou, esperou pacientemente até que eu tivesse idade suficiente para entender que meu pai não era um bigode, e sim a pessoa por trás dele, para modernizar o visual.
Foi graças a ele que, aos treze anos, eu me tornei a única menina da turma a cantar de cor todos os maiores sucessos do Fagner. Hoje, ainda me sobrou toda "Borbulhas de amor" e os melhores trechos de "Espumas ao vento", além do sotaque, é claro.
Não entendo porque até hoje ele se assusta quando começo a cantar as vinhetas da narração dos jogos de futebol pelo José Carlos Araújo, Gerson canhotinha de ouro e cia, já que foram ele e aquelas voltas de viagem num domingo à tarde que me fizeram, involutariamente, gravar essas músicas.
Minha paixão pelo cinema vem da mania dele de assistir QUALQUER filme. Mesmo aquele, japonês, da década de 80, que ele já pegou pela metade! Ele precisa assistir até o final, para muitas vezes concluir que o filme é uma droga. E toda vez que ensaio me irritar com essa mania, lembro que ele é o único que atura meus filmes, que para os outros, são igualmente chatos.
Foi dele que herdei as contas, o raciocínio lógico, e daqui a seis meses, me tornarei a engenheira que acredito que ele gostaria de ter sido.
Muitos dos meus tijolos não foram feitos por ele. Mas não consigo reconhecer um andar sequer sem um pedaço do seu bigode, do seu Fagner e do seu amor.
Feliz dia! Dos pais, e todos os demais.
domingo, 12 de julho de 2009
Que me venha a coragem
Não é a primeira vez que eu sento em frente a essa torre desde o último post. Podia dar a desculpa da falta de tempo, se é que eu preciso de desculpas pra não escrever, mas não foi bem por isso que não estive por aqui.
Sentei pelo menos mais uma vez pra escrever, extasiada por um final de semana incrível que tive, onde vi depoimentos crus de pessoas que achava que conhecia. Mas a gente não conhece ninguém até vê-la totalmente desarmada, falando coisas que aparentemente não fazem nenhum sentido. Até vê-la pura, livre de ideias alheias.
Escrevi vários textos e trechos de textos e não tive coragem de postar nenhum. De que adianta um texto se você reescreve cada palavra cinco vezes? Se você começa a se questionar o que os outros irão achar dele?
Tentei ser sincera nos últimos textos e percebi como soam falsos hoje. Ai, falsos não... palavra pesada demais, não define. Como soam calculados hoje. Não adianta... todos os adjetivos que hoje aplico a eles possuem uma carga negativa gigante, esmagadora.
Sempre admirei esse puro-cru, esse ponto onde a mente processa e a boca não filtra, não tenta reorganizar. Acho que é um daqueles casos onde você admira o que mais lhe falta. Não sou falsa, mas não posso me atrever a dizer que sou sincera, pelo menos não do jeito que eu defino a sinceridade.
A gente só conhece alguém quando ela está desarmada, e meu arsenal tem estado carregado.
Quando comecei a torre, achei que conseguiria aqui atingir essa sinceridade, e foi só descobrir que gente conhecida, amiga, lia a torre pra eu me rearmar completamente... Cansei.
Que venham textos crus, cheios de mãos abanando, sem armas nem flores. Que venha a sinceridade dos verdadeiros conhecidos.
Que me venha a coragem
Sentei pelo menos mais uma vez pra escrever, extasiada por um final de semana incrível que tive, onde vi depoimentos crus de pessoas que achava que conhecia. Mas a gente não conhece ninguém até vê-la totalmente desarmada, falando coisas que aparentemente não fazem nenhum sentido. Até vê-la pura, livre de ideias alheias.
Escrevi vários textos e trechos de textos e não tive coragem de postar nenhum. De que adianta um texto se você reescreve cada palavra cinco vezes? Se você começa a se questionar o que os outros irão achar dele?
Tentei ser sincera nos últimos textos e percebi como soam falsos hoje. Ai, falsos não... palavra pesada demais, não define. Como soam calculados hoje. Não adianta... todos os adjetivos que hoje aplico a eles possuem uma carga negativa gigante, esmagadora.
Sempre admirei esse puro-cru, esse ponto onde a mente processa e a boca não filtra, não tenta reorganizar. Acho que é um daqueles casos onde você admira o que mais lhe falta. Não sou falsa, mas não posso me atrever a dizer que sou sincera, pelo menos não do jeito que eu defino a sinceridade.
A gente só conhece alguém quando ela está desarmada, e meu arsenal tem estado carregado.
Quando comecei a torre, achei que conseguiria aqui atingir essa sinceridade, e foi só descobrir que gente conhecida, amiga, lia a torre pra eu me rearmar completamente... Cansei.
Que venham textos crus, cheios de mãos abanando, sem armas nem flores. Que venha a sinceridade dos verdadeiros conhecidos.
Que me venha a coragem
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Páscoa, Assaltos e Rotinas
Começo o texto com apenas o título pronto, o que é bem incomum. Normalmente ele é o último a ser cuspido. Mas uma série de eventos e pensamentos estão me fazendo passar por aqui, nem que seja só pelo título.
Primeiro as rotinas. Passo rapidamente por diversas delas. Gosto de criar rotinas só pra depois abandoná-las e ter a sensação de algo diferente de novo. Crio rotinas de músicas, de hábitos alimentares, de rituais antes de dormir, de metodologias de estudo, de programas de TV. Mas logo tranco essas rotinas em caixas que me trazem as suas próprias sensações que, por algum motivo, adquirem cheiros.
Simplesmente abandono essas caixas, ficam por aí. E como tudo o que fica no meio do caminho, essas caixas são destampadas pelos esbarrões de uma desastrada como eu. Descubro que o tempo só realçou os cheiros. Então pronto, minhas rotinas se tornam blocos cheirosos que serão sempre muito familiares para mim.
Agora a Páscoa. Assim como todas as outras festividades, essa também se tornou um bloco. O bloco do Natal me apresenta primos e tios reunidos, pessoas dormindo embaixo da mesa e um video-game de presente de amigo oculto de 10 reais... cheiro de fita do Mario Kart. Com o dia das mães vem os cafés da manhã, preparados pela minha irmã, comidos muito mais por mim do que pela minha mãe... cheiro de batom, o presente oficial de anos seguidos.
O bloco da Páscoa tinha cheiro de santa ceia mas vinha embrulhado em papel higiênico, usado como cartão pelo meu primo num amigo secreto de chocolate. Vinha, não vem mais.
Meu bloco da Páscoa de 2008: Lagoa, amiga, prima, dois caras armados e logo uma bolsa vazia.
Meu bloco da Páscoa de 2009: Ipanema, amigos, dois caras armados e logo sem bolsa e sem carro.
Então eu chego nos assaltos. Se logo após um assalto, eu choro de nervoso pelo perigo que eu corri e de raiva por perceber que volto com as mãos vazias pra casa, agora eu choro de puro ódio. Por perceber que situações como essas não me fazem apenas perder um celular, um perfume ou um óculos, mas me fazem perder os cheiros dos meus blocos!
Se na hora eu quero gritar como uma criança: "Larga que isso não é seu!", agora eu quero perguntar pra esses projetos mal sucedidos de seres humanos se valeu a pena. Se valeu a pena ameaçar a minha vida, tornar em rotina e consequentemente apodrecer o meu bloco de páscoa, por um carro que foi abandonado logo em seguida, por cartões e celulares bloqueados, pelos míseros trocados que vão arranjar com as coisas que arrancaram da gente!
Se falamos que eles não têm direito de fazer isso, que é um absurdo, que trabalhamos a vida inteira pra alguém chegar e arrancar de você, me desculpe, mas não é com isso que estou preocupada. Estou preocupada porque estamos chegando num ponto onde partes da nossa vida estão apodrecendo por isso, lugares estão deixando de ser frequentados, lembranças estão sendo pixadas por esses eventos que bastam acontecer uma vez pra se tornarem rotina.
Não quero viver desviando de blocos podres, a não ser que eles sejam realmente meus! Porque eu também apodreço meus blocos, mas como eu disse: EU apodreço MEUS blocos! Não preciso de almas podres infeccionando o meu ambiente.
Primeiro as rotinas. Passo rapidamente por diversas delas. Gosto de criar rotinas só pra depois abandoná-las e ter a sensação de algo diferente de novo. Crio rotinas de músicas, de hábitos alimentares, de rituais antes de dormir, de metodologias de estudo, de programas de TV. Mas logo tranco essas rotinas em caixas que me trazem as suas próprias sensações que, por algum motivo, adquirem cheiros.
Simplesmente abandono essas caixas, ficam por aí. E como tudo o que fica no meio do caminho, essas caixas são destampadas pelos esbarrões de uma desastrada como eu. Descubro que o tempo só realçou os cheiros. Então pronto, minhas rotinas se tornam blocos cheirosos que serão sempre muito familiares para mim.
Agora a Páscoa. Assim como todas as outras festividades, essa também se tornou um bloco. O bloco do Natal me apresenta primos e tios reunidos, pessoas dormindo embaixo da mesa e um video-game de presente de amigo oculto de 10 reais... cheiro de fita do Mario Kart. Com o dia das mães vem os cafés da manhã, preparados pela minha irmã, comidos muito mais por mim do que pela minha mãe... cheiro de batom, o presente oficial de anos seguidos.
O bloco da Páscoa tinha cheiro de santa ceia mas vinha embrulhado em papel higiênico, usado como cartão pelo meu primo num amigo secreto de chocolate. Vinha, não vem mais.
Meu bloco da Páscoa de 2008: Lagoa, amiga, prima, dois caras armados e logo uma bolsa vazia.
Meu bloco da Páscoa de 2009: Ipanema, amigos, dois caras armados e logo sem bolsa e sem carro.
Então eu chego nos assaltos. Se logo após um assalto, eu choro de nervoso pelo perigo que eu corri e de raiva por perceber que volto com as mãos vazias pra casa, agora eu choro de puro ódio. Por perceber que situações como essas não me fazem apenas perder um celular, um perfume ou um óculos, mas me fazem perder os cheiros dos meus blocos!
Se na hora eu quero gritar como uma criança: "Larga que isso não é seu!", agora eu quero perguntar pra esses projetos mal sucedidos de seres humanos se valeu a pena. Se valeu a pena ameaçar a minha vida, tornar em rotina e consequentemente apodrecer o meu bloco de páscoa, por um carro que foi abandonado logo em seguida, por cartões e celulares bloqueados, pelos míseros trocados que vão arranjar com as coisas que arrancaram da gente!
Se falamos que eles não têm direito de fazer isso, que é um absurdo, que trabalhamos a vida inteira pra alguém chegar e arrancar de você, me desculpe, mas não é com isso que estou preocupada. Estou preocupada porque estamos chegando num ponto onde partes da nossa vida estão apodrecendo por isso, lugares estão deixando de ser frequentados, lembranças estão sendo pixadas por esses eventos que bastam acontecer uma vez pra se tornarem rotina.
Não quero viver desviando de blocos podres, a não ser que eles sejam realmente meus! Porque eu também apodreço meus blocos, mas como eu disse: EU apodreço MEUS blocos! Não preciso de almas podres infeccionando o meu ambiente.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
As antigas

"I'm not saying I don't cry but in between I laugh. I look forward to a good crying. It makes me feel pretty damn good."
Às vezes elas vêm como enxurradas. Enxurradas a princípio educadas, pedem permissão para sair; logo se tornam abusadas, por te tomarem todo o controle uma vez postas em liberdade; mas finalmente, são agradecidas, proporcionando o alívio que se segue à sua dramática saída.
Pela grande maioria, e inclusive por mim, são almejadas. Quem necessita delas sabe que não seria sensato reprimí-las.
Mas particularmente, acredito que existem mais significativas do que estas...
As antigas. Eu as conheço melhor e elas a mim. E não há ninguém que possa definir o que faz dessas as antigas. Suas idades variam de acordo com a rapidez com que me percorrem por dentro, são antigas porque são familiares, não me espanto com sua saída. Aliás, pouco acontece ao redor durante seu escape.
Saem calmamente, não têm pressa de chegar a lugar algum, sabem muito bem o poder que apenas uma dessas tem, a força com que podem me quebrar. Por isso, vêm em pouca quantidade, são caridosas. Vão carinhosamente contornando os meus contornos. Meio que dizendo: "não chore...", meio que desistindo de sair.
Se não as conhecesse tão bem, diria que são debochadas, mas não são. Muito mais parecidas comigo do que alguém possa imaginar, são tão finas que a sua transparência se torna evidente, tanto quanto a cor que as colore: a minha.
São mais reais do que as confusas enxurradas, sei muito bem porque elas estão lá e por isso são muito mais raras. Só necessito delas quando finalmente tudo faz sentido. Na verdade, não são elas que almejo e sim sua força, sua capacidade de abalar e, muito mais, de desconcertar.
Com toda essa força, são tímidas; com toda essa realidade, são totalmente desconhecidas, essas quietas e pesadas lágrimas.
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