sábado, 4 de fevereiro de 2012

Babel

Dá trabalho ser você mesmo quando não está acostumado com isso.
Dói muito descascar a tinta que te pintaram.
Demora pra descobrir onde cada peça se encaixa.
Demora um pouco menos pra entender que os compartimentos da sua existência são todos parte de uma só pessoa.

É estranho notar como você se deixa invadir pelo outro, deixa o outro ditar suas regras.
É pior ainda perceber que você nem sabe onde estão suas regras.
É decepcionante perceber que tudo isso é fruto do seu próprio egoísmo.
Que agradar os outros se tornou sua forma mais prática de existir.

Mas aí você também começa a perceber que as respostas podem não estar tão longe e que o caminho não precisa ser tão solitário.
Que é tudo parte de uma mesma transformação.
Aceitar quem você é como uma homenagem Àquele que te criou.
Entender que o processo de cura tem dessas coisas de morrer pra você mesmo.

Quero andar leve e de bem comigo.
Só assim vou conseguir ficar de bem contigo.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Costuras

É preciso vestir bem a própria pele
E conseguir mexer todos os dedos
Ter os braços tocando toda a superfície

Só um ombro esticado como cabide permite transitar em suas terminações tanto a dor como o arrepio

É preciso vestir bem a própria pele
E conseguir desfazer todos os nós
Ter os ouvidos descansados pelo silêncio

Só um pé firmado como uma planta consegue saber qual o tempero dos ares que o permeiam

É preciso vestir bem a própria pele
E conseguir eliminar todas as folgas
Ter os remendos superados pelo carinho

Só um corpo bem vestido pode dizer em que número ele se encaixa

sábado, 23 de abril de 2011

Meu companheiro Toddynho

Aconteceu uma coisa terrível... Comi a caixa do Toddynho.

Foi sem querer... 

Eis que eu estava fazendo meu ritual matutino e corriqueiro de tomar o meu amigo de todas as manhãs, o Toddynho. Ele é um bom camarada, sempre foi! 

Até que comecei a sentir uma coisa estranha na minha boca e descendo pela garganta. Mas o gosto do Toddynho estava normal, pois como te falei, ele é um bom camarada, sempre foi! Continuei tomando, tentando afastar da minha mente a possibilidade do meu bom camarada estar me traindo, até que...

Senti um pedaço grande de estranheza entrar na minha boca. Pensei que poderia ser a ponta inferior do meu canudo, porque o canudo é traiçoeiro... Quantas vezes ele já não se escondeu dentro da caixinha evitando que eu curtisse uma boa vibe com o Toddynho, o meu bom camarada, sempre foi.

Qual não foi a minha surpresa quando retirei a estranheza da boca e percebi o que realmente estava acontecendo... o Toddynho, que é um bom camarada, sempre foi, estava soltando pedaços de sua parede interna laminada que estavam sendo ingeridas por mim! Comi muitos pedaçinhos da caixinha do Toddynho, aquele que era um bom camarada, sempre havia sido, até constatar que o pior tinha acontecido.

Acho que vou morrer... se não for pelos perigos de ter lâminas cortantes de Toddynho vagando sem rumo pelo meu corpo, será pelo desgosto da traição daquele que eu gostaria que ainda fosse, o meu bom camarada.

sábado, 6 de novembro de 2010

Cheiro de Verão

Todo ano, durante essa época, uma velha e conhecida agitação me invade: o efeito verão. Que, ao contrário do que o nome possa sugerir, nada tem a ver com praia ou dias ensolarados, apesar de serem esses fatores os responsáveis por trazerem à tona esses sentimentos.

O efeito verão nada mais é do que meu corpo me avisando, de uma forma insistente e por vezes irritante, que chegou a hora de revisar os meus planos. Não acho que isso seja novidade pra ninguém, muita gente deve passar por isso, mas é uma sensação tão forte que acho que se não escrever sobre ela, a danada fica sentida e, das duas uma: ou me arrasa de ansiedade ou vai embora com lágrimas nos olhos.

O que tem me chamado atenção dessa vez é a inconstância com que esse sentimento tem me arrebatado ultimamente. Ele normalmente vem como um velho conhecido e meu corpo já sabe muito bem o que fazer com ele. Bom... não dessa vez.

Eu normalmente reajo com todo o planejamento, fantasioso ou não, dos próximos 5, 10 anos... não dessa vez.

Normalmente não deixo a incerteza gigantesca do futuro desconhecido chegar muito perto de mim... não dessa vez.

Mas, como diz um amigo meu, o corpo não sabe. Recebe toda essa agitação como se tivesse todo um quarto de hóspedes preparado pra ela mas, não tem. Não tem lugar, não tem cano pra dar vazão.

Numa fase bem estranha da minha vida, resta apenas continuar procurando o cômodo para hospedar o incômodo. Porque depois que tudo se acertar, sei que vou sentir falta desse, tantas vezes agradável mas hoje inconveniente, cheiro de verão.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Entre aspas

"Ao sair do cinema, lembrei da descrição que o jornalista Ruy Castro fez certa vez de uma socialite que, depois de ter agitado todas, se casou e teve três filhos: 'Se ela se distraísse, acabaria sendo feliz pra sempre'.

Tem muita gente que se distrai e é feliz para sempre, sem conhecer as delícias de ser feliz por uns meses, depois infeliz por uns dias, felicíssima por uns instantes, em outros instantes achar que ficou maluca, então ser feliz de novo em fevereiro e março, e em abril questionar tudo o que fez, aí em agosto ser feliz porque uma ousadia deu certo, e assim sentir-se realmente viva porque cada dia passa a ser um único dia, e não mais um dia. (...)

Felicidade pode ser qualquer coisa, menos acomodação. Acomodar-se é fazer uma viagem no piloto automático. Muito seguro, mas que tédio. É preciso um pouco de turbulência para a gente acordar e sentir alguma coisa, mesmo que seja medo."

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Aos desconhecidos: os nomes

O que quer que deixe o seu corpo entre sons e movimentos. Feições que lhe passam pelo rosto, mesmo que durante frações de segundos. Um tom de voz que se pronuncia maior que as próprias palavras. O ritmo de todas as suas ondas.

Uma constante entre diversas ações. O inesperado diante do familiar. Emoções que te arrastam aos lugares mais improváveis. Descobertas silenciosas que ocorrem entre outros silêncios. Entre os silêncios dos outros.

Seus sons favoritos. Os cheiros inesquecíveis. As cores das diversas saudades. Os ecos das lembranças cheirosas, daquelas caixas destampadas por acidente. As fotos dos momentos que ficaram. As fantasias psicodélicas de tudo que se espera.

"Uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."

Deixemos os nomes para os outros, para os desconhecidos. Entre nós, fiquemos com o inominável, com a carinhosa fluidez, com a confortadora falta de nomes.

domingo, 2 de agosto de 2009

"Marqueee o tempooooo"

Por hora, não me interessa se nossas datas festivas são apenas desculpas de uma sociedade consumista. Não me importa também que a quem se dirige essa mensagem nunca tenha lido meu blog. Pois não me faltam motivos para dedicar um andar dessa torre a pessoa que tantos desses tijolos fabricou.

Filho de peixe nem sempre peixinho é, mas em mim, se acham grudadas as barbatanas e muitas de suas escamas. E que escamas esquisitas muitas vezes eu acho por aqui.

Como a maioria dos pais da época, ele usava bigode. Mas foi um dos poucos que, quando a moda (!) passou, esperou pacientemente até que eu tivesse idade suficiente para entender que meu pai não era um bigode, e sim a pessoa por trás dele, para modernizar o visual.

Foi graças a ele que, aos treze anos, eu me tornei a única menina da turma a cantar de cor todos os maiores sucessos do Fagner. Hoje, ainda me sobrou toda "Borbulhas de amor" e os melhores trechos de "Espumas ao vento", além do sotaque, é claro.

Não entendo porque até hoje ele se assusta quando começo a cantar as vinhetas da narração dos jogos de futebol pelo José Carlos Araújo, Gerson canhotinha de ouro e cia, já que foram ele e aquelas voltas de viagem num domingo à tarde que me fizeram, involutariamente, gravar essas músicas.

Minha paixão pelo cinema vem da mania dele de assistir QUALQUER filme. Mesmo aquele, japonês, da década de 80, que ele já pegou pela metade! Ele precisa assistir até o final, para muitas vezes concluir que o filme é uma droga. E toda vez que ensaio me irritar com essa mania, lembro que ele é o único que atura meus filmes, que para os outros, são igualmente chatos.

Foi dele que herdei as contas, o raciocínio lógico, e daqui a seis meses, me tornarei a engenheira que acredito que ele gostaria de ter sido.

Muitos dos meus tijolos não foram feitos por ele. Mas não consigo reconhecer um andar sequer sem um pedaço do seu bigode, do seu Fagner e do seu amor.

Feliz dia! Dos pais, e todos os demais.